Ao abrir as páginas de “A invenção de Lisboa n’O ano da morte de Ricardo Reis”, ingressamos na análise de Izabel Margato sobre uma complexa arquitetura de linguagens costurada por Saramago. O livro O Ano da Morte de Ricardo Reis é um marco da literatura contemporânea em língua portuguesa, e é aqui analisado sob a luz de sua principal força motriz: a capacidade de transformar o passado em uma invenção viva do presente.
A pesquisadora fundamenta sua leitura no conceito de “invenção do presente”, discutindo como o fazer literário exige um reordenamento dos fatos pregressos. (…)
A análise de Izabel Margato revela então como esses ínfimos “pontos-sentido”, oriundos de notícias de jornal ou odes poéticas, se cruzam para formar uma totalidade vibrante e intencional. (…) Nesse contexto, o cenário de Lisboa é mais uma vez recuperado por um olhar contemporâneo que busca, em meio aos rastros e ruínas do passado, reconstruir a fisionomia de um tempo sombrio. (…) A investigadora demonstra que a genialidade do romance reside em retirar Ricardo Reis da imobilidade estética de suas Odes para o movimento concreto das ruas de Lisboa. (…) “A Invenção de Lisboa n’O Ano da Morte de Ricardo Reis” convida o leitor a habitar o território poroso do “… falso tudo, e verdadeiro”.
[PEDRO HENRIQUE BORGES]
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Neste trabalho Izabel Margato propõe uma leitura rigorosa e articulada de um romance, a partir de um gesto crítico central: compreender a ficção de José Saramago como espaço privilegiado de reinvenção do passado e de invenção do presente. To- mando a Lisboa de 1936 como cenário, o estudo examina como o romance O Ano da Morte de Ricardo Reis constrói uma paisagem marcada pelo confronto entre discursos oficiais e vozes silenciadas, entre a aparência da ordem e a experiência do “mau tempo” político e social.
A análise revela uma cidade que emerge como uma construção narrativa instável, tecida por múltiplas focalizações; o tempo histórico aparece como matéria ficcional sujeita a deslocamentos e reinterpretações; e o personagem, por sua vez, é lido como uma reinvenção necessária, marcado pela consciência da duplicidade e pela erosão de antigas formas de neutralidade diante do mundo.
O estudo evidencia a perspicácia de Saramago para articular diferentes regimes de verdade e colocá-los em permanente confronto, dissolvendo fronteiras rígidas entre ficção e história. Dessa forma, fica mais nítido que a intenção do autor português não é uma tentativa de restaurar uma utopia supostamente perdida, nem tampouco uma promessa de redenção futura. O que O Ano da Morte de Ricardo Reis faz é sustentar uma tensão entre tempos distintos, fazendo do presente o lugar crítico onde passado e memória se interrogam.
Dialogando com a tradição crítica de Walter Benjamin a Eduardo Lourenço, a abordagem da professora Izabel Margato compreende a literatura como forma ativa de conhecimento histórico e político. Destinado a leitores do campo da literatura e áreas afins, o estudo é uma interpretação consistente e aprofundada do trabalho de José Saramago, capaz de iluminar a complexa arquitetura conceitual de uma das obras centrais da literatura portuguesa contemporânea.
[DANIEL CASTRO]
Número de páginas: 140
1.ª edição: Outubro de 2026
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